aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

Renuncia


Chora de manso e no íntimo... 
Procura curtir sem queixa o mal que te crucia: 
O mundo é sem piedade e até riria 
 da tua inconsolável amargura. 
Só a dor enobrece e é grande e é pura. 
Aprende a amá-la que a amarás um dia. 
Então ela será tua alegria, 
e será, ela só, tua ventura... 
A vida é vã como a sombra que passa... 
Sofre sereno e de alma sobranceira, 
sem um grito sequer, tua desgraça. 
Encerra em ti tua tristeza inteira. 
E pede humildemente a Deus 
que a faça tua doce e constante companheira...

Profundamente


Quando ontem adormeci 
Na noite de São João 
Havia alegria e rumor 
Vozes cantigas e risos 
Ao pé das fogueiras acesas. 
No meio da noite despertei 
Não ouvi mais vozes nem risos 
Apenas balões 
Passavam errantes 
Silenciosamente 
Apenas de vez em quando 
O ruído de um bonde 
Cortava o silêncio 
Como um túnel. 
Onde estavam os que há pouco 
Dançavam 
Cantavam 
E riam 
Ao pé das fogueiras acesas? 
- Estavam todos dormindo 
Estavam todos deitados 
Dormindo 
Profundamente. 
Quando eu tinha seis anos 
Não pude ver o fim da festa de São João 
Porque adormeci. 
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo 
Minha avó 
Meu avô Totonio Rodrigues 
Tomásia Rosa 
Onde estão todos eles? 
- Estão todos dormindo 
Estão todos deitados 
Dormindo 
Profundamente.

Poética


Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público 
com livro de ponto expediente 
protocolo e manifestações 
de apreço ao Sr. diretor. 
Estou farto do lirismo que pára 
e vai averiguar no dicionário 
o cunho vernáculo de um vocábulo. 
Abaixo os puristas 
Todas as palavras sobretudo 
os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo 
as sintaxes de excepção 
Todos os ritmos sobretudo 
os inumeráveis 
Estou farto do lirismo namorador 
Político Raquítico Sifilítico 
De todo lirismo que capitula 
ao que quer que seja fora de si mesmo 
De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos 
secretário do amante exemplar 
com cem modelos de cartas 
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbedos 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare 
- Não quero mais saber do lirismo 
que não é libertação.

Poemeto erótico


Teu corpo é tudo o que brilha 
Teu corpo é tudo o que cheira 
Rosa, flor de laranjeira 
Teu corpo, claro e perfeito 
Teu corpo de maravilha 
Quero possuí-lo no leito 
estreito da redondilha 
Teu corpo, branco e macio 
É como um véu de noivado. 
Teu corpo é pomo doirado, 
Rosal queimado de estio 
Desfalecido em perfume 
Teu corpo é a brasa do lume
Teu corpo é chama 
E flameja como à tarde os horizontes 
É puro como nas fontes 
a água clara que serpeja, 
Que em cantigas se derrama, 
volúpia da água e da chama 
Teu corpo é tudo o que brilha, 
Teu corpo é tudo o que cheira. 
 A todo momento o vejo 
Teu corpo, a única ilha 
no oceano do meu desejo.

Plenitude


Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra. 
O ar é como de forja. A força nova e pura 
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra, Avassalar-me o ser a vontade da cura. 

A energia vital que no ventre profundo 
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes, 
Sobe no caule, faz todo galho fecundo 
E estala na amplidão das ramadas felizes, 

Entra-me como um vinho acre pelas narinas... 
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto 
O bálsamo aromado e quente das resinas 
Que vem na exalação de cada terebinto. 

O furor de criação dionisíaco estua 
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas, 
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua 
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas  

Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude... 
Canta em minh'alma absorta um mundo de harmonias. Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude 
- Belo como Davi, forte como Golias... 

E neste curto instante em que todo me exalto 
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo, 
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto 
Nem flamejou mais bela a chama do desejo. 

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza! 
Vós que cicatrizais minha velha ferida... 
Vós que me dais o grande exemplo de beleza 
E me dais o divino apetite da vida!

Paisagem noturna


A sombra imensa, a noite infinita enche o vale... 
E lá no fundo vem a voz Humilde e lamentosa 
Dos pássaros da treva. Em nós, 
- Em noss'alma criminosa, 
O pavor se insinua... 
Um carneiro bale. 
Ouvem-se pios funerais. 
Um como grande e doloroso arquejo 
Corta a amplidão que a amplidão continua... 
E cadentes, metálicos, pontuais, 
Os tanoeiros do brejo, 
- Os vigias da noite silenciosa, 
Malham nos aguaçais. 
Pouco a pouco, porém, a muralha de treva 
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleve 
A sombria massa 
Das serranias. 
O plenilúnio vai romper...
Já da penumbra 
Lentamente reslumbra 
A paisagem de grandes árvores dormentes. 
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias, 
Tintas deliquescentes 
Mancham para o levante as nuvens langorosas. Enfim, cheia, serena, pura, 
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, fazendo levantar a fronte 
Dos poetas e das almas amorosas, 
Dissipando o temor nas consciências medrosas 
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura, 
- A Lua 
Assoma à crista da montanha. 
Em sua luz se banha 
A solidão cheia de vozes que segredam... 
Em voluptuoso espreguiçar de forma nua 
As névoas enveredam 
No vale. 
São como alvas, longas charpas 
Suspensas no ar ao longo das escarpas. 
Lembram os rebanhos de carneiros 
Quando, fugindo ao sol a pino, 
Buscam oitões, adros hospitaleiros 
E lá quedam tranquilos ruminando... 
Assim a névoa azul paira sonhando... 
As estrelas sorriem de escutar 
As baladas atrozes 
Dos sapos. 
E o luar úmido...fino... 
Amávico...tutelar... 
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes...

O último poema


Assim eu quereria o meu último poema 
Que fosse terno dizendo as coisas 
mais simples e menos intencionais 
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas 
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume 
A pureza da chama em que 
se consomem os diamantes mais límpidos 
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação